terça-feira, 8 de outubro de 2013

A EMBOSCADA..., por Paulo Lopes

Hélios a descolar
Os patrulhamentos à volta do nosso estacionamento continuavam como continuava a nossa vegetação no tempo.

Com estratégia um pouco diferente mas com intenção exatamente igual: assim que o sol punha em questão a sua continuidade diária dando inicio ao seu desaparecimento por detrás do horizonte, saia um grupo para patrulhar em redor da zona circundante ao estacionamento, acampando e emboscando diversificados pontos da mata, só regressando pela manhã.
 
Quando chegou a vez de o meu grupo sair, em vez de ir patrulhar, calhou-nos em sorte, uma operação com a previsão para cinco dias:
— Encontrar e emboscar trilho muito batido por elementos IN, na direcção dos Montes Metecos.
Era a finalidade desta operação!
A festa continuava.
A luta prosseguia.
As horas seguiam pachorrentas. Pachorrentas em demasia para quem queria ver o tempo correr, pular a cerca do arame farpado, voar por cima da extensa floresta e aterrar num local de paz, se possível bem longe de armas e, principalmente, dos abutres desta incompreensível guerra.
Tudo nos parecia igual ao dia anterior... ou quase tudo: operações, picadas, emboscadas, cansaço, sofrimento, desilusão, esperança e de vez em quando, à mistura, muito disfarçado, aparecia um pouco de falsa contradição à regra para alegrar o ambiente.
Por isso também estas minhas memorias que vou transcrevendo para estas longas paginas são quase sempre iguais.

Procurámos o tal trilho, qual agulha no palheiro, mas a Av. da Liberdade nunca mais dava mostras de si!... No nosso pensamento pairava a incerteza de se estaríamos corretamente orientados.
Se não estaríamos em coordenadas erradas ou que julgaríamos estar ou, mais uma vez, o tal trilho era invenção ou má informação do nosso querido major. Andámos de um lado para o outro.
 
Dirigimo-nos a norte e a sul, percorrendo toda aquela zona indicada pela mensagem e nada, absolutamente nada! Já nos preparávamos para regressar à Mataca quando, ao comunicarmos dando informação das coordenadas onde nos encontrávamos, do insucesso da operação e pedindo autorização para o regresso, fomos informados para abrir uma clareira nas coordenadas “X” a fim de os helicópteros poderem reabastecer-nos para mais três dias.
Noticia muito mal recebida mas a qual não havia espaço nem forma para contestação e tinha de ser cumprida.
Fomos ainda pernoitar nas coordenadas indicadas e na manhã seguinte fizemos a preparação necessária para a aproximação e aterragem dos hélios.

Ao longe, já se ouviam os motores do bombardeiro T6, companhia habitual nestas andanças de reabastecimentos.
Para facilitar a tarefa dos pilotos das aeronaves que vinham ao nosso encontro e para uma mais rápida e eficaz deteção do local, tentámos comunicar com eles através do radio banana mas —espanto dos espantos— não funcionou!!
Entretanto os helicópteros já se avistavam mas um pouco distantes do objetivo e numa direção errada à que se pretendia.
As tentativas de comunicação com o T6 ou com os pilotos dos hélios continuavam a ser frustradas. Não conseguíamos obter qualquer sinal e quanto mais tempo eles andassem a mostrar-se no ar, maior era a hipótese de serem observados pelo IN dando-lhes indicação correta do nosso posicionamento e da nossa presença na zona.
Nada a fazer: radio avariado!
Conclusão brilhantemente encontrada!
Comunicámos com Mataca através do Racal:
— Alo XY9. Alo XY9. Aqui macacos. Informa se me ouves. Escuto.
— Diz lá ó macaco. Respondeu o radiotelegrafista de serviço no posto da Mataca com um certo ar de gozo devido ao cognome que foi dado à formação de combate para esta operação, coisa que se fazia muito nestas comunicações até talvez para nos dar um pouco de animo e aliviar tensões.
— Aqui o macaco está à rasca com os pássaros. Vê se consegues comunicar com eles que eu já estou farto de estar empoleirado nos galhos das árvores.
— OK., vou tentar. Continua atento.

Esperámos um pouco.
Entretanto lançámos duas granadas de fumo.
Quê do fumo? Lançámos mais duas. Uma amostra de fumo, ou tentativa disso, saiu vagarosamente e muito a custo duma delas que mais parecia o apagar de um cigarro que nem aos primeiros ramos das árvores chegaria. Mais uma brilhante conclusão: granadas de fumo deterioradas! Exatamente igual aos nossos altos comandantes: mentes deterioradas!
Voltámos a ligar:
— Alo XY9. Alo XY9. Aqui macaco. Diz se me ouves. Escuto.
— Sim macaco. Estou a ouvir.
— Conseguiste alguma coisa ?
— Já estou em contacto com os pássaros. Vai dizendo a tua posição..
— Eles que voem mais para sul. Estamos numa clareira perto de árvores secas e queimadas.
Apenas mais um pouco de espera e prosseguimos: — Assim esta bem. Venham sempre em frente. Se correto termino. Um Alfa Bravo.

Finalmente desceram. Um após outro depois do levantamento do anterior. Descarregaram as rações de combate e a água, voltando a afastar-se rapidamente.
Confusa mas ordenadamente fez-se a rápida distribuição dos mantimentos e de água destinados a cada um de nós.

Continuámos em busca do malfadado trilho mas agora possuidores de novas ordens de direção a seguir.
Palmilhámos horas fazendo paragem para almoço numa esplanada com vista para os Montes! Agradável visão mas o “serviço” era péssimo e o menu, lastimável, por isso, sem deixar gorjeta, fizemo-nos à “estrada” porque o tempo escasseava e o trilho não queria aparecer.
Conseguimos encontrá-lo ao fim da tarde!
Afinal existia!
Seguimos por ele durante algum tempo.
De repente surgiu uma sucessão de trilhos que se dividiam em forma de forquilha e avançavam em três frentes.
Escolhemos o mais batido!
Todos nós redobrámos a nossa atenção, convictos de que algo nos esperava no extremo do trilho!
Cautelosos e desconfiados, com uma lentidão de caracol, olhos de Lince e ouvidos afinados, íamos progredindo no trilho.
De repente, num relâmpago e numa sequência vinda da frente, todos nos deitámos no chão: o homem que seguia no ”olho” da formação tinha detetado uma palhota e deu o alerta através dum sinal gestual para o que seguia na sua retaguarda fazendo sucessivamente o elo de ligação aos outros que, como é óbvio, seguíamos em formação de progressão.
Do lado da palhota o silencio predominava!
Tudo levava a crer que não se encontrava la ninguém, mas nada de fiar, nada nos dava a garantia que não estivessem emboscados, prontos para disparar sobre nós.
Por isso todas as cautelas tinham de ser tomadas e qualquer movimento tinha de ser avaliado como suspeito.
Os primeiros homens do grupo que ia na frente adiantaram-se um pouco mais originando a falta de comunicação entre nós, desfazendo a necessária e indispensável ligação.
O meu grupo seguia na retaguarda e no meio do mato, uma a uma, iam surgindo mais palhotas.
De repente, um dos homens do grupo, deu a sinalética para nos baixarmos e deitou-se preparando-se para disparar:
Tinha detetado vultos em movimento no meio das palhotas !
Fazendo uso de toda a força dos pulmões, alguém gritou:
— ALTO. NÃO DISPARES SÃO OS NOSSOS.
Creio que este berro protetor, auditivo a longa distancia, evitou algo de muito mau!
Se aquele homem tem disparado a sua arma, originava um pandemónio geral que, depois, ninguém saberia quem era quem e ficaríamos ali a disparar contra nós mesmos, pois os vultos que vagueavam por entre as palhotas pertenciam ao grupo que seguia na frente e que, com a excitação do achado, se afastara demasiadamente ficando assim a comunicação visual e gestual perdida, esquecendo- se de que, com esta falha, os que seguiam na sua cauda ficavam sem conhecimento do que se estava a passar na frente da coluna desconhecendo a posição deles.
São falhas humanas que só sucedem a quem anda no meio desta guerra e desta mata agressiva de densidade extrema e de perigos constantes.
São também estas falhas que demonstram a nossa fragilidade, a nossa meninice para estas façanhas. Provas evidentes da quão relativa era a nossa experiência e capacidade de guerrilha.
Apesar de estarmos já com muitas e longas horas de “voo” nesta máquina que é a guerrilha de floresta, existem pormenores que nos escapam e são completamente varridos trazendo ao de cima toda a nossa estrutura de amadores da guerra.

Quando parte de um exército, aquela que combate no mato, só está em ação porque a isso é obrigada, sem ter em mente um objetivo comum e enraizado nas suas entranhas que luta por uma causa justa.
 
Quando apenas a intenção é simplesmente manter-se vivo, sobreviver ao tempo, defender a sua própria pele e a dos seus companheiros e ir-se embora o mais rápido possível, abandonar as vestes de militar, esquecer as armas, ignorar os que nos enviaram para esta vida, descomprimir o nosso espaço, nunca poderá existir uma coesão total de força comum, nunca será uma real fileira de guerra nem de máquinas mortíferas capazes de matar por matar e dar a vida pela tal causa justa que a todos beneficiaria.
Arrisco a dizer que nós, os amadores, os incompetentes, os inadaptados a esta vida, poderíamos não perceber nada do que estávamos involuntariamente a fazer mas tínhamos um conhecimento que nos generalizava a questão: esta guerra nada tinha de justa e muito menos iria beneficiar o povo português.
Beneficiaria sim, os tubarões nacionais e internacionais.
Esta guerra não era nossa, apenas tínhamos de a suportar e obrigatoriamente defender, com a nossa própria vida, os interesses bilaterais instalados no sistema minado de corruptos e corrompidos poderosos, mágicos da mentira, malabaristas das palavras.
Figuras escondidas por de trás de outras caras menos poderosas na politica mas tão ciosas do poder monetário e protagonismo quanto os seus mandantes.
Por isso e por razões de defesa própria, estando no meu pensamento que tal sentimento, não sendo generalizado era, no mínimo, em grande maioria, razão para que, podendo nós dizer não, seguindo os nossos instintos, desprezar por completo as ordens dadas pelos profissionais, o faríamos.
 
Profissionais da guerra que nunca estão presentes nestas nem em nenhumas ocasiões onde a presença do perigo nos aperta o peito e assola a calma.
Nenhuma destas peripécias e de outras tantas de desfecho trágico que acabaram com vidas de jovens inocentes na flor da vida acontecem numa daquelas maquetas feitas em cima de uma mesa, com a operação a ser comandada pelo ponteiro de um qualquer general ou de patente parecida.
Aí, com a destreza, valentia, coragem e amor à Pátria do ar condicionado, tudo é perfeito e não existem falhas, receios ou negações às ordens e até éramos capazes de terminar a guerra em meia-dúzia de dias.
Mas esses heróis dos mapas e ponteiros para alem de pensarem que sabem de táticas e esquemas desta guerrilha mas que não percebem patavina, também não tinham no seu horizonte de vida, terminar com a guerra.
Não era fator que estivesse nos seus reais interesses!.
Porquê terminar com a boa vida cheia de prazeres e tão lucrativa?... Não eram eles que corriam perigo eminente e os seus filhos, naturalmente, estariam no Colégio Militar!
Ou na Suiça!
Digo eu que, apesar das circunstâncias adversas, continuo a gostar de dizer coisas!

Felizmente alguém se apercebeu e teve olhos e frieza suficiente para ver que, quem estava do outro lado das palhotas, eram os nossos próprios companheiros!
Mas o forte grito não perturbou os homens que naquele momento já destruíam todas as palhotas que, sem duvida, era um posto avançado de uma base próxima, dada a forma de construção e de como era a continuação e estilo de trilhos.
Depois de tudo destruído, avançámos paralelamente e bastante cautelosos por um dos trilhos.
Decerto que os habitantes daquele posto avançado já se tinham apercebido há muito que andávamos por ali e, como tal, tudo era de esperar, desde minas colocadas no trilho, emboscadas previa e minuciosamente preparadas, a morteiradas enviadas da base.
Já o sol se começava a esconder no horizonte e a luz do dia ameaçava o colapso quando nos afastámos um pouco do trilho para pernoitar e montar uma emboscada.
Com todas as instruções dadas e tudo já “acomodado” nos seus locais de pernoita e emboscada, ligamos para Mataca:
- Alo XY9. Alo XY9. Aqui macaco. Diz se me ouves. Escuto.
— Diz lá meu macaco!
— Toma nota e chuta para DN6.
Detetadas e destruídas varias gaiolas vazias. Estou quieto. Espero ordens. Diz se correto. Escuto.
— OK. Macaco. Volta daqui a dez que eu vou informar DN6. Escuto.
— Correto XY9. Termino. Um alfa bravo.
Passado o tempo recomendado, voltamos a ligar:
— Alo XY9. Alo XY9. Aqui macaco. Diz se me ouves. Escuto.
— OK. Macaco. Estava a tua espera. Já tenho bananas para ti. Toma nota. Continua quieto e amanhã quando almoçares volta a este. Diz se correto. Escuto.
— Correto. Um alfa bravo. Termino.

Tal como o major ordenara, ficámos emboscados até cerca das onze horas da manhã seguinte sem que nada tenha acontecido. Quando ligámos a Mataca para informar que nada tínhamos visto nas horas anteriores, deram-nos ordem de regresso, o que fizemos de bom grado, numa caminhada, o mais direta possível e com a rapidez que as nossas pernas cansadas permitissem.

in "Memórias dos Tempos Perdidos ou a Verdade dos Heróis"
 Paulo Lopes