segunda-feira, 26 de novembro de 2018

5ªfeira: 15Jul1971 - itinerário Macomia > Chai, por Valter Duarte Pereira dos Santos

portal UTW
5ªfeira: 15Jul1971 - itinerário Macomia > Chai

"Recordando": depoimento de Valter Duarte Pereira dos Santos, Moçambique 1970-1974; agora em Lamego


- «Estávamos em meados do ano de 1971.

Era 4ª feira, a noite foi atribulada. O 'gringo', alcunha do apontador de morteiro 60, tinha retirado - da mochila do maqueiro -, álcool. Entrou na caserna e disse: "Hoje é para matar... ".

Estava eu na minha cama, levantei a cabeça e reparei que ele tinha uma arma G3. Desci da cama e, assim que ele me virou as costas, deitei-lhe as mãos à arma, retirei o carregador e disse-lhe: "Gringo, somos camaradas e andamos aqui pela mesma causa."

E o assunto ficou por aí.

De manhã, 8 horas, tudo pronto rumo ao Chai, Antadora e Largo do Oasse: viaturas civis e militares, mais de 30.

Tudo corria normalmente, já tínhamos passado a ponte do rio Muacamula rumo ao Chai. De repente, uma nuvem de fumo: todos ficámos em alerta total: o que acontecera?

O pior estava para vir: uma mina anticarro, reforçada com bomba de avião, dois mortos. Um primeiro-cabo e um soldado, um Unimog desfeito. Dois corpos completamente aos bocados, uma cratera com mais de 10m². 
(nota)

Era assim a guerra: onde se lutava, vencia-se e morria-se.»

Elementos cedidos por um colaborador do portal UTW:

(nota):  Naquela época, encontrava-se o Esquadrão de Cavalaria 1 da Região Militar de Moçambique (ECav1/RMM) desde Setembro de 1970 aquartelado em Macomia integrado no dispositivo do Batalhão de Cavalaria 2923 (BCav2923).

domingo, 25 de novembro de 2018

O MARROQUINO (1), por José Nobre

O MARROQUINO (1)
Navio Niassa – 4 de Agosto de 1967.
Era o nosso segundo dia de viagem a bordo do Navio Niassa, o qual pertencia à Companhia Nacional de Navegação, mas que desde o inicio da guerra ultramarina, servia para transportar, os mancebos mobilizados para o chamado ultramar. 

O nosso destino era Moçambique. 
Rapidamente compreendemos que a vida dentro daquele navio não seria fácil. 
Os porões tinham sido transformados em dormitórios, centenas e centenas de camas, que não eram mais do que umas tábuas cobertas com os chamados “colchões de espuma” e uma manta. 
Não existia qualquer local para as refeições, os duches eram de água salgada e as retretes eram uns cubículos mal amanhados, onde a privacidade dos utilizadores não existia. 
Bastou uma única noite, a primeira, para que a vida a bordo daquele navio se transformasse num inferno. 
O cheiro a vomitado que vinha dos porões era indescritível. 

Começava bem a nossa viagem a caminho de uma guerra que ninguém queria.
Nessa manhã de 4 de Agosto de 1967, tivemos a primeira palestra dada pelo nosso capitão, o comandante da Companhia de Cavalaria 1728, e também a primeira revista ao fardamento, entre outras coisas.

O Marroquino, o soldado condutor 044483/67, era a gargalhada da companhia 1728. 
Quando recebeu o fardamento, poucos dias entes do embarque para Moçambique, meteu-o dentro do saco de viagem e nunca mais lhe tocou, ficou tal e qual como lhe tinham entregue.
Antes da formatura já todos riam do fardamento do “marroquino” destacava-se de todos os outros que tinham o fardamento à sua medida. 

O alferes Guerra gritou, sentido, e todos ao mesmo tempo obedeceram à ordem.
O Capitão Pereira Monteiro, ou seja o “Becas” acabava de chegar para proceder à primeira revista da companhia. 
Olhou para todos, um a um, e ia fazendo alguns reparos sobre o cabelo, a barba, as camisas desabotoadas, e até o emblema da boina que não estava direito. 
A meio da revista, deu com os olhos no marroquino, não acreditou no que estava a ver. 
Tinha um verdadeiro espantalho na sua frente, no meio do seu pessoal. 
Ficou vermelho (particularidade do “Becas” quando se irritava). 
Fez-se ainda mais silêncio. 
Todos esperavam pela reação do comandante da companhia.
- Então você, (o Becas tratava todos por você) não tinha ninguém para lhe tratar do fardamento? 
Porque não trocou a camisa e os calções? 
O algarvio mantinha-se em sentido.
Diga- me lá porquê?
O Niassa avançava para Moçambique e enquanto o “Becas” falava o silêncio ainda era mais pesado, até os motores do navio faziam menos barulho.
- Como o meu capitão sabe, os meus pais estão em França, vai para dois anos, e eu não sei coser roupa e também não tenho ninguém na família que tenha o curso de “ Corte e Costura.”
Ouviu-se um burburinho na formatura, o Augusto, mesmo ao lado do marroquino, fazia um grande esforço para não rir.
- E as camisas, meu capitão, só haviam estas quando chegou a minha vez de receber o fardamento.
Ainda ficou mais vermelho, o “Becas.” 
A sentença caiu pesada, chamou pelo furriel, responsável pelos condutores, mais conhecido por “Parafuso” e disse-lhe.
- Este soldado deverá comparecer na próxima formatura com o cabeça rapada, e fica proibido de sair do navio quando chegarmos a Luanda.

Saiu-lhe cara a piada do “corte e costura.” 
Em pleno Atlântico tinha começado uma relação, entre o “Becas”, o marroquino e o barbeiro, que só terminaria no dia 12 de Outubro de 1969 quando regressaram a Lisboa. 

Depois e durante os vinte e sete meses moçambicanos, foram só mais umas doze carecadas, o marroquino, partiu careca e chegou careca.

Evidentemente que o “ Becas” quando da nossa escala em Luanda, deixou-me sair do Niassa, para um breve conhecimento da capital angolana.

Depois do nosso regresso de Moçambique e já no quartel de Estremoz, e na hora das despedidas, o “Becas” abraçou o marroquino e disse-lhe: Se algum dia tiver filhos e eles se portarem mal......não se esqueça de lhes dar uma carecada.
Ainda hoje, quando entro numa barbearia e me sento na cadeira, sinto a vontade de dizer...
É mais uma carecada.
RIP – Capitão Pereira Monteiro, nunca me esquecerei de si.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Ainda a história do macaco à caçadora..., por vários

Velhas DE Estremoz Alentejanas
(Duarte Pereira)

Há uns anos atrás

Boa tarde senhoras e senhoras.

Poucos nos conhecerão.

Fomos e seremos " a voz incómoda deste Batalhão".

Fomos " militantes" deste Grupo.
Estivemos, saímos e voltamos a entrar uma série de vezes.

Só hoje tivemos o prazer de ler este texto do compadre. Fernando Afonso.
Fernando Afonso 17 de Janeiro de 2018 22:14
Para mim a guerra terminou em Março de 74.
Procuro não falar muito desses tempos.
As minhas memórias estão bem arrumadas na gaveta.
Vivo tranquilo e feliz.
Um abraço.
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O que nos oferece dizer sobre o mesmo ?
Muitas "situações" deverão ser esquecidas, mas outras deveriam ser relembradas.
Exemplos:
Históricas pitorescas que terão ficado na memória.

Na Mataca : O padre foi convidado para um "divinal" almoço que foi " macaco".

Um furriel ? foi o mentor .
Quem terá sido? recorda-se? .

Fernando Afonso, sabemos que não foi o compadre, mas estaria lá para recordar este famoso almoço?
Recorda esta "Autoestrada"?


Armando Guterres No célebre almoço - também não estava eu.

Paulo Lopes Um pouco extenso (aliás, gostaria de transcrever um pouco mais para trás para ficarem bem melhor elucidados) mas, para quem quiser ou estiver interessado conhecer um pouco desta "história" do divinal e eclesiástico almoço, aqui fica:

.................................................... Chegados ao aquartelamento, o F......, com a nossa participação e conivência, continuou com o seu projecto, dando a conhecer a todos os graduados que se tinha apanhado dois coelhos para se fazer um petisco. 
Os bichos foram entregues ao primeiro-sargento que de imediato entrou na paródia, para que este, exímio cozinheiro de patuscadas —notava-se que gostava de comer a avaliar pela sua formosa barriga, tendo em conta que gordura é formosura— fizesse um belo coelho à caçadora.Entretanto fomos dando dois dedos de conversa com o capitão capelão. Dava perfeitamente para entender que era um homem de não tiranizar ninguém nem tão pouco apresentar a força divina com a sua força de galões de capitão.Tinha uma candura ingénua de jovem eclesiástico não tendo, no entanto, a boca constantemente cheia de milagres. Sabia bem o que estava a fazer e qual a sua missão: era apenas um pastor de ovelhas fardadas e sabia que, naquele local de cheiro a guerra, nem todos acreditavam nas suas palavras. Eu, pelo que me diz respeito, apenas ponho em causa o seguinte e que não consigo compreender muito bem: se do outro lado da guerra, dos que teimosamente tinham o cognome de turras, existe outro qualquer padre, pedindo ao mesmo Deus exactamente a mesma protecção para os seus homens, como é que o bom Deus iria resolver esta questão? Que lado ele defenderá? Que homens mereciam a sua salvação? Será que conseguirá terminar o conflito entre as partes terrestres? 
Pelo menos, até agora, não conseguiu pôr termo à ganância dos poderosos que, aliás, a grande maioria deles, se não todos, são muito dados a essas bênçãos do Céu, quando mostram o lado falso da sua face oferecendo este mundo e o outro aos altos eclesiásticos! Será que até ao bom Deus eles conseguem enganar? 

E lá fomos conversando. Laracha daqui, laracha dali, até que veio a ordem para início da festa: —O petisco está pronto! 

Todos os graduados, sem excepção, nem mesmo os sabedores do que estava dentro das travessas pronto a ser servido, se fizeram rogados aos pretensos coelhos! Estranhamente ninguém se lembrou que, coelhos, e desconheço a razão, foi animal que nunca foi visto em todo o enorme palmilhar que fizemos ao longo de toda aquela selva, provavelmente porque, se alguma vez existiram, pela sua fraqueza defensiva, depressa foram dizimados e extintos pela enorme quantidade de animais esfomeados, de tais apetitosas presas, que abundavam naquelas matas!!! 
O certo é que todos comeram alegremente e os comentários fugiam sempre para os mesmos adjectivos: 
— Maravilhoso. 
— Delicioso manjar. 
— Ricos coelhos. 
— Divinal. 
— Porra que esta merda está boa! 

O F........, como era hábito nas chegadas das operações, já não estava com todos os seus sentidos a trabalhar em pleno. 
Ria a bom rir, gozando deliciosamente a sua partida mas, tal como todos os outros, encharcava o pão no delicioso molho de macaco à caçadora! Não sobrou nada! Se mais houvesse, mais iria! O pior veio a seguir: na continuação da sua maquiavélica construção, o F........ saiu da mesa e apareceu um pouco depois com uma bandeja onde trazia, não uma qualquer sobremesa para terminar a patuscada, mas sim, as cabeças dos desgraçados macacos! E para colocar um pouco mais de pimenta no seu cenário, só por si, bastante elucidativo, uma das cabeças vinha com um cigarro aceso na boca como que a gozar o espectáculo que se seguiria: Os sabedores do que tinham estado a comer, riam-se às gargalhadas. Os outros, que pensavam ter acabado de se deliciarem com coelho, depressa transformaram essa guloseima em mau estar. Sofreram um impacto digestivo que, não fosse o restaurante ter um parque de estacionamento do tamanho do mundo e não haveria lavabos que chegassem para tanto vomitar! A maior vítima foi o capelão que, coitado, enquanto ficou na Mataca ,o que durou até à chegada do táxi aéreo das quartas-feiras, não conseguiu comer nada que se pudesse chamar realmente de comer! Tudo vomitava! 
Espero que nos tenha perdoado e nos mantenha nas suas orações diárias que, presumo, as tenha e esqueça esta pequena maldade praticada por este seu rebanho de lobos com pele de cordeiros (ou será que é ao contrário?!!!). 
........................................
in "Memórias dos Anos Perdidos ou a Verdade dos Heróis"
paulo lopes


Fernando Afonso Vamos lá então relembrar. No final de uma operação fizemos uma paragem nas imediações do aquartelamento fazendo tempo para entrar (só entrávamos no fim do dia). De repente fomos visitados por um bando de macacos fazendo acrobacias nas árvores por cima das nossas cabeças. Surgiu então a ideia de alguém e prontamente corroborada pelo Capitão Salgado, de matarmos 2 macacos. E assim foi de facto. resto da história é como o Paulo Lopes diz contudo tem uma imprecisão. Quando entrámos no aquartelamento eu próprio avisei o Paulo do que iria acontecer porque ele tinha na altura alguns problemas de estômago. Eu e ele fomos talvez os únicos que não comemos. Na altura estava lá também o médico que comeu sem problemas. O padre é que passou mal de facto. 
Geri




Fernando Afonso Já agora e para ser mais preciso devo dizer foi um jantar e não almoço.

 Não consigo dizer com precisão mas não me ademinaria nada que a ideia fosse do Ferreira 

( conhecido entre nós por LONTRA ).

Paulo Lopes Viva Fernando Afonso! Tudo bem contigo amigo?

Conforme já diversas vezes informei por aqui e para que não ficassem algumas dúvidas, o livro que escrevi, não o fiz com o intuito de ser um diário mas sim um romance que, não tendo as devidas e correctas acções dos factos (até porque não me recordava exactamente de tudo), tentei dar-lhe uma parte de ficção sem, no entanto, lhes alterar o essencial das questões por que passámos. 

Os diálogos teriam que ser inventados mas dentro do contexto, as histórias terão, forçosamente, que ter imprecisões mas aproximam-se. 
Por isso também já por aqui disse que foi pena não ter conhecimento desta página porque, com ela, e nas diversas conversas, avivei a memória e tive conhecimento de situações que me passaram ao lado mas que ficariam bem "encaixadas" no dito livro. Assim como, e exactamente como este capitulo, me alertaste e bem, para factos mais correctos da verdadeira história. 

Fico-te grato pela tua correcção e que, também, elucidará melhor os que queiram saber algo da nossa "história".

Quanto ao mentor deste "filme" e disso tenho a certeza, foi o nosso amigo e sempre bem disposto Ferreira (Lontra). 
Só não coloquei o nome no livro, como o não fiz com os nomes de todos os nossos camaradas (excepto o meu) com quem convivemos estas passagens da nossa vida porque não estava devidamente autorizado para o fazer.

Obrigado pela tua correcção amigo.

Aquele abraço e, por favor, se leres mais alguma coisa extraída do livro e que eu coloque por aqui, se tiveres memória, "arrefinfa-lhe" a correcção.

Gerir




Velhas DE Estremoz Alentejanas Compadre Jose Augusto Palminha - O compadre também " macacou" ? 
Fernando Afonso Evidentemente que a 45 anos de distância é natural que algumas imprecisões possam surgir. A minha intenção foi apenas e só aproximar mais a história da realidade. Como já disse as minhas memórias da guerra estão guardadas e ao longo destes anos raramente falo delas. Claro que nunca se podem apagar mas evito falar. A vida continuou. Estou bem comigo e espero que todos vós também. Um abraço.
Gerir




Paulo Lopes E que continues sempre bem Fernando Afonso, feliz e de saúde é o que te desejo meu amigo. E não julgues que tive quaisquer pensamento menos próprio pela tua correcção! Como disse, e estou a ser sincero, agradeço todas essas correcções, muito úteis e esclarecedoras, para um melhor entendimento dos factos. E não foi 45 anos depois que eu escrevi o livro. Escrevi-o há mais de dez anos mas, como te disse, não é um diário nem foi escrito como tal. Apesar de não quereres trazer para fora dessas tuas "gavetas" onde guardas as memórias, por vezes faz bem "arejar" as coisas guardadas! Aquele abraço Fernando Afonso e não deixes de aparecer por aqui,
Gerir


Fernando Afonso Aproveito para vos comunicar que o nosso amigo furriel enfermeiro 

Lourenço está internado há cerca de um mês no hospital. 

A situação é complicada. 

Ontem foi transferido para uma unidade de cuidados continuados em Idanha a Nova.

Paulo Lopes Isso é que é uma má notícia!


Paulo Lopes Se te for possível amigo Fernando Afonso, vai-nos mantendo informados.