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domingo, 19 de julho de 2020

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Serra do Mapé. ...um "buraco" algures no norte de Mocambique!..., por José D'Abranches Leitão

Memórias...
As primeiras, escritas num "diário"...que ao final de cada dia, ia guardando ...
Memória...
Serra do Mapé. ...um "buraco" algures no norte de Moçambique.
Difícil? ! !!! Não se apagará no meu "disco rígido "!
E já lá vão 49 anos!!!!
Antes que...se faça tarde!!!
Escrevo.
Recordo...



Em cada dia que os dramas nos afectam aumentam as nossas carências de afectos, mas cresce também a cumplicidade para enfrentar as dificuldades. 
A solidariedade cresce na medida em que os esforços individuais dão lugar ao esforço colectivo. 
À distância do fulcro da confusão, ninguém entenderá as carências vividas no meio da guerra. 
E quanto maiores forem os tormentos, maior será a solidariedade. 
Só quem não conhecer os horrores provocados pela guerra poderá pensar que ela tem alguma coisa de atractivo, salvo as bestas que a fomentam!

Os outros, de marmita na mão, olham-se amargurados pela evacuação do Furriel Mil Vellasco Martins, vitima de uma mina anti-pessoal, perto do morro da "Tentativa".

Estávamos apenas à 21 dias na "guerra"!!!!!

- Serei o próximo?
Quando soa a tampa do panelão, que o cozinheiro Rolim Rosa faz ecoar chamando para o rancho, percebemos que estamos aprisionados entre o infinito das matas e a lonjura da civilização. 
Amarrados ao isolamento, sobra tempo para pensar, pensar... pensar em quê? 
A vida dentro do arame farpado, torna-se tão abstracta que nem os pensamentos têm sentido. 
O espaço exterior assusta, pela imensidão da mata imemorável! 

Ao cair da noite, uma espécie de cortina de breu deixa toda a gente amarrada aos temores das granadas de morteiro com trajectórias orientadas para o massacre. 
Ninguém sabe qual é a matriz da morte na ponta da espoleta. 
Para evitar que sejamos comidos pelos ratos, que são às centenas, vindos da mata e percorrem a vala comum, procurando os restos de uma ração de combate ou mesmo um bocado de pão esquecido no abrigo.... ao final do dia são acesas, à volta do arame farpado, umas lanternas improvisadas, numas garrafas de cervejas....com uma mecha embebida em petróleo. 
Assim o "alvo" é óptimo para qualquer atirador!!!!?

É assim que vamos tentando equilibrar os ânimos. 
Amargurados pelo sofrimento em condições hostis, abandonados no isolamento daquele inferno chamado Serra do Mapé, desvanecem-se as motivações para continuar uma guerra que não tem fim à vista!

Só ao alvorecer, o sol anuncia o fim deste embrutecimento, quando se dissipam os medos suscitados pelo fluxo das "obusadas" matinais. 

Sem rendilhados, movemo-nos devagar, descomprimindo os nervos para que o sangue circule com mais vigor e limpe os restos do pânico provocados pelos ruídos da noite, que acordam os fantasmas imaginados, que evocam o terror do inferno.


Como é que vamos resgatar o tempo assim perdido entre o céu e o inferno, sem esperança no futuro próximo?

Serra do Mapé - Norte de Moçambique - Setembro de 1970.
Jose Leitão
CCav 2752
Nota: recordo hoje todos os pormenores daquela "saga" !