sexta-feira, 20 de maio de 2016

Histórias do Chai XI (1972/1974), por Livre Pensador





21 de Março de 1973 foi, sem qualquer dúvida, o dia mais negro da comissão da Ccav. 3508 em terras moçambicanas.

 

Como habitualmente, pelas 6,30 h da manhã, parte em direção ao rio Messalo a coluna de reabastecimento de água, tarefa que nesse dia era desempenhada pelo 4º. grupo de combate.

 
 
É uma missão sempre perigosa que, por ser rotineira, se torna um alvo apetecível para a Frelimo.

 
 
Creio que estariam percorridos cerca de 8 dos 10 km que separam o Chai do rio Messalo quando é desencadeada uma emboscada contra as nossas tropas.
 
No quartel o tiroteio é perfeitamente audível e de imediato sai uma coluna com um pelotão (não me recordo qual) para dar apoio aos camaradas emboscados.
 
Nesse dia a escala de serviço determinava que o 2º. pelotão estava encarregue da segurança do quartel: postos de sentinela e piquete de emergência.

Nas funções do piquete, a realizar ao princípio do dia, constava a picagem da pista de aterragem e a apanha de lenha para a cozinha, tarefa que o furriel Pardal com a sua secção, iniciou no único Unimog (o único sem blindagem) que restou no quartel.


 
Entretanto, via rádio chegam notícias pouco animadoras da emboscada.
 
Havia um ferido muito grave (o soldado de transmissões Salvado) com um tiro na zona do peito e 4 feridos ligeiros.
Entre os nativos (que aproveitavam a coluna para ir lavar a roupa ao Messalo) estava já morta a "Luísa maconde", que era assim como "garota de programa" das NT e porque era conhecida.
 
Ainda estávamos a tentar reagir ás noticias tristes da emboscada quando se ouve uma forte explosão na picada Chai - Macomia.

Queríamos fazer chegar alguém a esse local para ver o que teria acontecido.
Nesse momento quase não havia operacionais disponíveis e, para complicar ainda mais, não tínhamos viaturas, a não ser o jeep do comando.
 
Alguns minutos depois chega ao quartel, todo ensanguentado e a cambalear, o cabo Brotas.
Ele informa que o piquete tinha sido vitima duma mina anticarro e havia feridos muito graves.
 
Nesse momento, quatro ou cinco militares armados dirigem-se no jeep do comando para o local.
A cerca de 500 metros do arame farpado do aldeamento, enfrentam um cenário de horror com feridos graves espalhados pelo chão.

 
 
Os militares socorristas ficam a montar segurança no local, enquanto o jeep vai trazendo para o quartel um ou dois feridos em cada viagem.
 
Os feridos amontoam-se na enfermaria onde o furriel Gardete e outro enfermeiro (naquela semana não havia médico) tentam fazer os impossíveis.

 
 
Presto a minha justa homenagem a esses dois homens, que muito contribuíram para que o resultado não fosse pior do que aquele que foi.
 
Eu (que estava no quartel com paludismo) e alguns camaradas tentávamos acudir aos feridos menos graves, da forma que podíamos e sabíamos.
 
Em resultado da mina faleceram 3 militares: o cabo condutor Paulino, o atirador Constantino e outro atirador que não recordo o nome (Monteiro).
 
Houve ainda 4 feridos graves (um deles o Pardal) e 3 feridos ligeiros.


 
Na emboscada para o Messalo acabou por falecer o transmissões Salvado.
 
Contou o furriel Gaspar que o Salvado já em agonia ainda lhe disse: "FURRIEL, POR FAVOR, DÊ-ME UM TIRO NA CABEÇA PORQUE EU SEI QUE VOU MORRER".
Alguém seria capaz disso?
 
Entretanto, o soldado Brotas que ferido na mina, conseguiu chegar ao quartel, lamentou-se que ao chegar á entrada do aldeamento pediu ao milícia aí de sentinela para ir avisar o quartel, o que ele recusou.
 
Achámos essa atitude estranha e disso informámos o agente da PIDE/DGS do Chai.
Foi interrogado.
 
Conclusão: as duas minas (já falo da outra) foram colocadas pelos guerrilheiros da Frelimo com a ajuda de 3 "pretos" do aldeamento e o milícia tinha conhecimento disso.
Um bom exemplo da população que nos rodeava!!!!
O agente da PIDE/DGS prendeu os 4 até vir um avião buscá-los no dia seguinte.
 
Pedimos ao agente para autorizar que os levássemos ao quartel durante 1 hora, mas ele não concordou.
Decerto que se evitava a despesa duma viagem de avião!!!


 
Ainda na tarde desse dia e apesar da dose de paludismo com que estava, fui rebentar uma outra mina anticarro que estava colocada cerca de 200 metros após aquela que foi acionada pelo Unimog.


 
Com esta ação e na minha opinião, a Frelimo quis vingar-se do ataque que no mês anterior tínhamos feito á sua base "Distrito Mucojo".
21 DE MARÇO DE 1973.
DIA DE LUTO PARA A CCAV. 3508.
QUATRO MORTOS, QUATRO FERIDOS GRAVES E SETE FERIDOS LIGEIROS.
 
 
Fernando Bernardes O transmissões Salvado morreu nos meus braços.
Enquanto a vida dele se extinguia, não parou de dizer repetidamente: Ai que morro, ai que morro.
De volta dele, estava eu e o enfermeiro do pelotão da ponte.
Eu tb fiquei ferido de toda parte lateral esquerda do corpo.
Quando cheguei junto dele, estava deitado de costas e de cabeça voltada para o mato na beira da picada.
O orifício no peito, na zona do mamilo, por onde entrou a bala, já não saía sangue nenhum.
Eu tinha uma ótima amizade com o Salvado.
Convivemos muito os dois.
Segundo ele próprio me disse tinha o problema qualquer no coração.
Coração dilatado.
 
 
Livre Pensador Quero pedir desculpa por ter dado "dois pontapés na gramática" no texto que escrevi. Onde se lê "quando se HOUVE uma forte explosão" deve ler-se "quando se OUVE uma forte explosão" e onde se lê "todo ENSAGUENTADO" deve ler-se "todo ENSANGUENTADO". Obrigado.
 
 
Rui Briote Quando estes casos fatídicos aconteceram encontrava- me de serviço.
Quando da emboscada dizia-se logo que o Salvado tinha falecido.
 
Quando do rebentamento da mina e com a chegada do Brotas juntei meia dúzia de "aramistas" fomos ao local do sucedido.
Chegados lá, ficámos horrorizados com o que vimos.
Quatro camaradas muito feridos, crianças estropiadas...o clima era muito pesado e as lágrimas começaram a escorrer pelos nossos rostos.
De imediato, levámos os feridos para a enfermaria.
 
O Gardete e enfermeiros foram incansáveis procurando minimizar o sofrimento dos feridos.
Três foram logo, que foi possível, evacuados.
O Constantino, ferido na "femural", rapidamente veio a falecer.
 
 
José Guedes Devia ser um dia para esquecer, mas a memória não consegue esquecer, tudo marca esses momentos e com tantos problemas ao mesmo tempo com baixas e feridos todo o pessoal era pouco para aquela situação.
 
A gente confiava na tropa negra que estava do nosso lado e afinal também jogavam dos dois lados e com certeza nem sabemos nada da missa a metade, muitas das coisas se calhar eles sabiam que iriam acontecer, nem os da cor deles conseguiam proteger quando sabiam que muitos deles nos acompanhavam nas colunas,..
Infelizmente tantas coisas se passaram de mal e nunca ninguém mais quis saber de quem tão mal passou durante aquele tempo que por lá andou,..
 
 
Armando Guterres Dos dois lados ... não escolhe cor.
Não esquecer que os oficiais dos dois lados estudaram nas mesmas faculdades.
Antes de ir para Moçambique conheci alguns.

 
 
José Lopes Vicente Seguia no rebenta minas quando se deu esta fatídica emboscada.
Quando rebentou disse para o condutor para acelerar e só parar na ponte do Messalo.
Ai foi apontar o morteiro 80 em direção da emboscada e disparar umas quantas granadas.
 
De regresso ao local da emboscada deparo com o Salvado já morto.
Um amigo aqui de S. Salvador e também os mortos civis e onde me informaram que também havia mortes no Chai.
 
 
Fernando José Alves Costa Ao lembrar os acontecimentos desta data, pergunto-me como é que aqueles que viveram toda esta tragédia comemoram o dia de hoje?
Com alegria por estarem vivos?
Ou tristeza pelos amigos que viram as suas vidas interrompidas tão precocemente?
 
 
Jose Capitao Pardal Não me lembrava da data (faz anos hoje), mas depois de ler o texto do Ribeiro e chorar convulsamente, só consegui dizer: PUTA DE VIDA AQUELA,...
 
 
 O  José Capitão Pardal escreve o primeiro aerograma após 3 intervenções cirúrgicas...