sexta-feira, 4 de março de 2016

Histórias do Chai V (1972/1974), por Livre Pensador

Livre Pensador
 
A operação "OMO 1" teve início no dia 23 de Abril de 1972 e nela estiveram envolvidos 3 grupos de combate da CCAV. 3508.
No aquartelamento do Chai ficou apenas o 1º. pelotão, que em conjunto com os restantes militares não operacionais procuraram assegurar a logística e a defesa das instalações.
É verdade que a "OMO 1" foi uma terrível experiência para todos quantos estiveram nela envolvidos, mas também é certo que os militares que ficaram no Chai não tiveram uma vida nada fácil.
 

Chai

 

Durante o dia a vigilância nos postos de sentinela e na porta de armas era realizada pelos chamados "aramistas" (cozinheiros, mecânicos, condutores, etc.).
Os militares do 1º. grupo de combate tinham de assegurar todas as tarefas diárias que incluía o abastecimento de água com a coluna para o rio Messalo (a 10 km do Chai), a picagem e segurança da pista de aviação e a apanha de lenha para a cozinha.
 
A caminho da ponte sobre o rio Messalo
 
Nos pequenos tempos livres procurava-se dormir, pois que durante a noite a segurança do quartel era garantida pelos operacionais do 1º. pelotão que, logicamente, não podiam dormir nessas horas.
 
Foi nesse período de grande azáfama que num determinado dia surgiu no quartel uma nativa com uma criança ás costas a dizer que estava na machamba com o marido quando surgiram uns guerrilheiros da Frelimo e lhe raptaram o marido.
 
Perante a situação, não havia outra solução que não fosse a deslocação dos militares ao local para tentar recolher indícios.
 
O maior problema foi conseguir reunir um grupo de militares perante o tão reduzido número disponível no quartel.
Fui incumbido dessa missão.
Juntando 3 ou 4 atiradores do meu pelotão com mais 3 ou 4 militares da formação e 2 ou 3 milícias, lá decidimos avançar até ao local do rapto.
 
Pedi á nativa para seguir na frente indicando o caminho e eu posicionei-me atrás dela.
Assim fomos andando normalmente por um trilho que atravessava várias machambas.
A determinada altura apercebi-me que a mulher começou a dar passos que me pareciam mais cautelosos e eu fiquei mais atento também.
Poucos passos á frente eu senti e ouvi um "CLICK" debaixo de uma das minhas botas e nesse instante agradeci o facto de ter tirado o curso de minas e armadilhas.
 
 
Mina antipessoal
 
Rapidamente percebi que tinha acabado de pisar uma mina anti-pessoal, mas por sorte minha estava montada com dispositivo de atraso.
Gritei que se deitassem para o chão e dei uma cambalhota para a frente.
Cerca de 3 a 4 segundos depois do "click" deu-se a explosão.
Felizmente que a rápida reação de todos minimizou os estragos.
Eu nada sofri e apenas 3 ou 4 militares foram atingidos por pequenos estilhaços, tendo sido tratados na enfermaria do quartel após o nosso regresso.
 
Porém, as hesitações que a mulher manifestou na aproximação ao local do rapto, fizeram-me pensar que havia algo de estranho.
Dei conhecimento disso ao agente da PIDE/DGS existente no Chai e a mulher foi interrogada.
 
Resultado: O marido estava no aldeamento e não tinha sido raptado pela Frelimo.
Foi ele que, em conjunto com elementos da Frelimo, montaram a mina naquele local e a mulher ficou incumbida de atrair os militares á cilada.
 
E assim ficámos a saber qual o tipo de "apoio" que teríamos de uma parte da população do Chai. Tinha sido caso para perguntar: " E esta... hem"?