sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A LEONOR, por Rui Brandão


Foto de Dias dos Reis

 
Disse e prometo que encerrei o tema Recruta.
 
Lancei-o de uma forma inadvertida (apenas para analisar o registo do que era operacional ou não...), mas em boa hora o fiz, por que o pessoal ficou "agarrado" ao tema e assim a página ganhou dinâmica. 
 
Hoje apanho um pouco a boleia da "Recruta" para lançar um novo tema (se os gestores da página me permitirem) que seria as "FIGURAS" que nos marcaram ao longo da nossa vida militar, quer positiva quer negativamente.
Hoje começo pela primeira - não em importância, mas sim cronologicamente.

A LEONOR

Nos primeiro dias de Recruta, o Artur Gomes (nosso camarada instruendo) denunciava uns trejeitos e uma musicalidade na oratória pró afemininado.
O pessoal começou a olhar de lado e a perceber que aquele tinha um "piquinho a azedo".
Não demorou mesmo nada...; ficou a ser a "nossa" Leonor.
 
O Artur Gomes não deixou para muito mais tarde e logo na 2ª semana de Recruta, com uma frontalidade e uma naturalidade impressionante, assumiu-se como homossexual perante o Pelotão. Estávamos em 1970!!!...

A Leonor foi dos instruendos que mais afrontou o tal palermóide do aspirante Serra (muito "encheu" ele por isso mesmo...).
A Leonor pertencia à minha patrulha e nunca ficou para trás ou se lamentou fosse do que fosse. Inclusivamente ajudava em tudo.
Um de nós que dizia sofrer do coração, nas patrulhas carregávamos à vez (incluindo a Leonor, claro...) a sua Mauser e ainda o transportávamos ao colo nas valas mais difíceis (no final da Recruta viemos a saber que era uma encenação orientada pela cunha que tinha).
Mais um cromo a juntar...

A Leonor, das onze semanas de Recruta, passou 8 ou 9 fins de semana enfiado no quartel.
O Pai não o aceitava como ele era, como tal não lhe dava dinheiro para poder ir a casa.
Todos nós sabemos que daríamos o "cú" e 5 tostões para ir de fim de semana.
A Leonor não era nem maricas, nem paneleiro, nem bicha, nem bichona, nem "bicharoca"...
 
A Leonor era um HOMOSSEXUAL com "eles" no sítio.
Tomara muitos machos serem HOMEM como a Leonor.
No dia em que fui ferido pelo tiro, a Leonor foi o primeiro a chegar junto de mim e desatou a correr para chamar os enfermeiros.
Contaram-me mais tarde que tinha andado a chorar toda a noite e a dizer "O Brandão ia tão mal!!!".
 
Se se derem ao trabalho de recuperar a imagem das assinaturas no verso da fotografia que publiquei há poucos dias, poderão verificar que está lá a assinatura do Artur Gomes com um desenho de uma boneca e o nome Leonor.
 
NOTÁVEL!!! No final da Recruta soube que foi para atirador.
Nunca mais o vi, nem sei qual foi o destino dele, nem sei se hoje ainda está vivo.
 
Nesta página parece-me ser o lugar ideal para deixar esta homenagem à Leonor (Artur Gomes)...
 
Rui Brandão (2013/08/02)