segunda-feira, 12 de agosto de 2013

PONTE DE MUACAMULA II, por Paulo Lopes

 
PONTE DE MUACAMULA

Chegou a altura de substituir o grupo que se encontrava na proteção à ponte de Muacamula.
 
Foi escolhido o quarto grupo de combate mas este não tinha, no momento, nem alferes nem furriel!... Fui premiado então, com a deslocação para aquele grupo a fim de comandar a missão que lhe tinha sido confiada.
 
Alias, dos graduados, já ninguém sabia qual o grupo a que pertencia tais eram as constantes modificações, mas também pouco nos importava.
Já nos conhecíamos todos muito bem!...
Tínhamos de lá estar e tanto fazia ter o Zé ou o Manel como companhia.
Todos nos dávamos bem e mal.
Todos tínhamos o nosso próprio feitio e todos, na hora da sobrevivência, sabíamos que todos dependiam de um e um dependia de todos.

E assim fiz mais uma picada até Macomia para depois ser auto transportado até Muacamula.

Estar nesta ponte, não era tarefa difícil e muito menos cansativa no aspeto físico, mas era, isso sim, muito perigoso e psicologicamente destrutível.
 
Não era difícil nem cansativa pelo simples facto de estarmos completamente inativos, esperando apenas pelo decorrer dos acontecimentos e do tempo hora.
Mas tornava-se muito perigoso porque estávamos mal defendidos, bastante isolados e num ponto fixo perfeitamente localizado e fácil de “morteirar”.
A proteção da ponte consistia apenas num arame farpado, muito mal colocado, de fácil transposição, estendido em redor do objetivo a guardar.
Duas portas em bambu, barrotes de madeira e arame, uma de cada lado da estrada que atravessava a ponte destruída, faziam as entradas e saídas.
Portas que eram munidas de alarme “eletrónico” ou seja: latas de cerveja com pedrinhas dentro destas, dependuradas no arame que faziam barulho se alguém empurrasse os portões!
Ou pelo menos assim pensaríamos porque, que eu presenciasse ou o fizesse, nunca foi testado esse pretenso alarme nem nunca se abriram os portões para passar alguma coluna militar!
 
Depois, dentro do círculo, estavam as pontes: a destruída e a de madeira que a substituía.
No centro, uma vala mais ou menos com um metro e meio de altura, estendendo- se em ziguezagues retos, servindo para nossa defesa em caso de ataque.
Num dos extremos da vala, um morteiro e no outro, uma metralhadora HK-21.
Material que, para além das nossas próprias armas, era o que tínhamos para completar a nossa defesa.

À noite, embrulhados na manta, tínhamos as estrelas como pintura do teto e a terra batida como alcatifa dum quarto sem cama.
 
O silencio total era a presença constante dessas noites.
Apenas os ruídos característicos duma selva levantavam a voz.
Por vezes dava-nos uma sensação de paz de espírito que quase nos tirava do alerta constante.
Por outras, transmitia-nos um estranho pensamento de duvida que nos obrigava a esforçar os olhos para uma melhor visão na imensa escuridão do mato.

 De dia, tínhamos uma forma estupenda de passar as horas conjugando o dever (?) com o prazer: como não existia preocupação com a dissimulação da nossa localização, pois estávamos mais que localizados, não havia o problema de não podermos fazer tiro.
Então, como não existia, em longos quilómetros de extensão, nenhuma aldeia ou aquartelamento, os animais selvagens, comestíveis ou não, andavam mais “distraídos” que o costume, o que nos dava oportunidade, enquanto patrulhávamos a zona, de poder escolher a nossa ementa, pois galinhas de água, gazelas, javalis e até alguns bois-cavalos eram presas fáceis de abater tal era a abundância destes animais naquelas paragens.
 
Isto estando a pensar no lado da “cozinha” porque dos outros, os habitualmente não comestíveis, para nós, europeus, também abundavam.
Principalmente rastejantes para os quais, alguns, tínhamos de ter uma certa atenção pela sua pouco amistosa presença e simpatia.
“Pessoal” que gostava de dar a sua dentadinha repleta de veneno capaz de nos fazer passar para o “lado de lá” se não fosse administrado de imediato o antídoto apropriado.
Produto que enchia, penso eu, parte da mochila dos nossos “enfermeiros de serviço”!
Até para irmos a “casa de banho” tínhamos de, obrigatoriamente, verificar bem as redondezas antes de mostrar as nossas brancas, lustrosas e bem visíveis nádegas!
Mesmo que estas não tivessem olhado para uma gota de água nos últimos dias.

Fome, valha-nos isso, não passávamos, mas sede, se não fossemos bem prevenidos, nem o “cheiro” de água passava por baixo daquelas pontes.
Raramente tínhamos de recorrer ás nossas rações de combate a não ser as latas de líquidos: um “especialista” em “descascar” animais, uma fogueira, sal e um pouco de imaginação eram suficientes para uma abastada refeição.
Todos os condimentos necessários nunca eram esquecidos para a deslocação daquela missão e os utensílios para os cozinhados iam ficando de grupo para grupo e já faziam parte da destruída ponte. Não era difícil arranjar em quaisquer um dos grupos alguém que soubesse tirar a pele ao animal caçado e separar o comestível do não aproveitável.
E se não sabíamos... inventávamos!
Vinha ao de cimo o desenrascar do já anexado habito do “portuga”, e o aproveitar das ocasiões nunca ficavam em vão!

Os dias foram passando e sem ter havido algo de preocupante ou de assinalar, fomos rendidos por outro grupo, este vindo da companhia estacionada no Chai.
 
Chegamos a Macomia sem problemas acompanhados e resguardados pelos “Chaimites”.
No dia seguinte, ás cinco horas da manhã, iniciamos o regresso a Mataca.
 
Seis horas depois, estávamos com mais trinta e tal quilómetros contados no mesmo carro, ou seja, nas nossas botas, e “estacionados” na nossa “garagem”, prontos e de motor a trabalhar para uma próxima viagem.

in "Memórias dos Anos Perdidos ou a Verdade dos Heróis"
Paulo Lopes