quarta-feira, 11 de março de 2015

Queda no slide..., por Rui Briote e outros

Por achar de muito interesse para a nossa  história, vou transcrever um diálogo, há tempo, surgido na página do Facebook, do "BATALHÃO DE CAVALARIA 3878".
 
Apesar de não ter assistido, pois já tinha passado o "slide" e estava noutra estação, lembro-me perfeitamente do episódio.



 
Vou relatar aqui um episódio ainda passado cá em Sta Margarida na chamada "prova de fogo".
 
 
Era eu o responsável pela primeiras parte dessa "prova" e que começava pelo slide.
Um dia aconteceu o inesperado...caiu um em plena pedreira mais, propriamente, o Claudino, não sei se alguém se lembras dele.
Ficamos em pânico, pois estava todo ensanguentado e nada tínhamos no local para o podermos socorrer.
Pegámos nele em braços e fomos em direção á capela onde já estava um héli.
Como é óbvio suspendi imediatamente a "prova".
Quando me dirigi à messe, logo o Comandante e o Major se dirigiram a mim e em altos berros perguntaram-me o porquê da suspensão.
Como resposta viram as lágrimas correrem pela face em catadupa...
Perante esta minha resposta deixaram-me em paz, mas fiquei marcado para sempre com mais este episódio que foi o primeiro onde vi sangue...

 
 
Rui Briote, lembro-me perfeitamente, no recomeço estava o Comandante a incentivar-nos, penso que havia uma roldana que não era completamente redonda e foi nessa que o Claudino ia pendurado, o Claudino caiu lá em baixo em cima das rochas com bicos.

Rui Briote

Mais pormenores não me recordo, pois estava , nessa altura no " túnel" que era logo a seguir.

 
 
O mais caricato é que quando a CCS estava para embarcar, o Claudino apareceu em Sta. Margarida, com meia cabeça de platina e já mobilizado para a Guiné.
 
 
 
Amigo Rui Briote.
Circulou uma frase que, tal como me contaram e que deve ser conhecida da maioria, foi atribuída ao major de operações.
Como não ouvi mas acreditando perfeitamente nos "transportadores" da frase que nada me espanta, serve para complemento do que te disseram: "Os homens requisitam-se mas o material compra-se".
 



 
O nosso convívio com esses fulanos que levavam para Sta Margarida a família, incluindo os filhos. Sabeis quais os brinquedos deles?
Não vos espantará de certeza...tudo brinquedos bélicos, como carros de combate e armas...
 

 
Eu ouvi contar essa frase do seguinte modo: depois de um Berliet ser minada e de seguida emboscada numa coluna em que alguns homens ficaram feridos, ao chegarem ao quartel o Major perguntou quantas viaturas ficaram danificadas, ao que o Comandante da coluna respondeu: Eu pensava que o meu Major me perguntava quantos homens ficaram feridos, e o Major respondeu: homens requisitos e viaturas compro-as.
 

 
Deverá ter sido isso ou coisa parecida.
Sabes que quando algo é contado, quando chega ao 10º, já o real anda um pouco alterado mas a essência mantém-se. 
(às vezes, nem sempre).
 

 
Esta frase ou melhor este conceito .. era o pão nosso de cada dia dos militares de carreira, não pensem que a ouviram quando dita a primeira vez.
 

Gilberto Pereira

GRADUADOS ERAM OS CHAMADOS " LEMBE-BOTAS "
 
Paulo Lopes

Pois acredito amigo Armando Guterres que este conceito de frase deve estar nos "canhanhos" dos cursos dos oficiais de carreira!


terça-feira, 10 de março de 2015

"Tás apanhado pelo Clima", por Rui Brandão

Rui Brandão
 
Hoje está um calor do catorze.

Ao "passear" pela nossa página, chega-me à ideia o calor daquelas zonas do Norte de Moçambique. Daí a frase bem gasta entre todos nós.

"Tás apanhado pelo Clima" ou "andas apanhado do clima".



Poderá ser a oportunidade para publicar uma foto de um "apanhado do clima" a cumprir mais um Sargento de Dia.
 

O Bragança - condutor da Berliet" - (já falecido) olha para mim e vai pensando: Estás pouco apanhado estás...

Recordo-me que nesta altura já tínhamos 24 meses de comissão e nem sequer sabíamos quando íamos rodar.

Apenas a informação; aquela era a hora de ir passear o bobi.
 

domingo, 8 de março de 2015

OS GRADUADOS "LEMBE-BOTAS", por Duarte Pereira

Duarte Pereira
 
INSPIREI-ME NESTAS PALAVRAS DO GILBERTO PEREIRA PARA ESCREVER UM PEQUENO, GRANDE TEXTO QUE ACABA POR SER HISTÓRICO PARA A COMPANHIA 3509 DO BATALHÃO DE CAVALARIA 3878, MOÇAMBIQUE 1972/74.
 
FAÇO UM POUCO DE HISTÓRIA.
A ÚLTIMA COMPANHIA DO BATALHÃO (3509) ERA COMANDADA POR UM CAPITÃO DE CARREIRA.
NÃO TINHA NASCIDO PARA "AQUILO" .
 
OS QUATRO ALFERES QUE CONHECI E FELIZMENTE AINDA CONHEÇO, ERAM DE COIMBRA PARA CIMA. LOGO GENTE INTELIGENTE DOU COMO EXEMPLO, QUE TRÊS EX-ALFERES AINDA TRABALHAM EM PROFISSÕES EXIGENTES E ESPERO QUE BEM REMUNERADAS.
 
O OUTRO, EX-BANCÁRIO TAMBÉM CONTRIBUIU NA ALTURA PARA A ECONOMIA DO PAÍS.
 
RECORDO O ANO DE 1971 EM SANTARÉM.
 
APLIQUEI-ME, ESTUDEI, DEI AO CANELO NO INVERNO, PRIMAVERA, VERÃO E INVERNO.
 
FIQUEI EM 2º LUGAR NO MEU CURSO.
 
O 1º CLASSIFICADO ERA MESMO BOM E SAIU-LHE A GUINÉ.
 
EM SANTA MARGARIDA FUI O "COMANDANTE" DOS FURRIEIS NUMA VIATURA DO LIXO QUE OS TRANSPORTAVA.
 
O MEU FUTURO ESTAVA TRAÇADO.
 
 
 
JÁ EM MOÇAMBIQUE DOIS EX-ALFERES, DEPOIS DE FAZEREM A ANÁLISE DO SEU COMANDO NOS PRIMEIROS MESES, OFERECERAM-SE PARA OS GE´S.
 
HAVIA UM FURRIEL, ALTO DE BIGODE E BOAS FALAS (REBELO) E "LIGADO" AO COMANDO QUE FOI O PRIMEIRO A SER GRADUADO EM ALFERES.
 
ERA DO 1º PELOTÃO.
TEVE AZAR, ENVIARAM-NO PARA A "PORRADA" EM CABORA BASSA.
 
CONTINUAVA A FALTA DE COMANDANTES DE PELOTÃO.
 
EM NOVEMBRO DE 72 E DEPOIS DE TEREM CONSULTADO OS "ASTROS", NOMEARAM-ME.
 
O FERRAZ FOI GRADUADO CAPITÃO E FOI COMANDAR O QUITERAJO.
 
POUCO TEMPO DEPOIS, PENSO EU, O SILVESTRE PIRES TAMBÉM FOI GRADUADO PARA PERMANECER NO 1º PELOTÃO.
 
ORA EU, CÁ O RAPAZ, TINHA ESTADO QUASE UM ANO NO 4º PELOTÃO COMANDADO PELO AMÉRICO COELHO E TENDO COMO "PARELHA" O EX-FURRIEL FERNANDO LOURENÇO.
 
CONHECIA OS SOLDADOS E CABOS POR DENTRO E POR FORA, JÁ OS TINHA VISTO TOMAR BANHO.
 
QUANDO ME DISSERAM QUE IRIA PARA O 3º PELOTÃO, EMBORA CONHECESSE DE VISTA E DE FAMA ALGUNS ELEMENTOS, SERIA DIFERENTE.
JÁ ME DAVA COM O EX-FURRIEL MADEIRA QUE TOPAVA BEM O MARALHAL.
 
EM MEADOS DE 1973, RENDIÇÃO INDIVIDUAL MANDARAM PARA LÁ O "MALUCO" DO MANUEL CABRAL, QUE AINDA VINHA COM A FEBRE DO "COMANDO" DA METRÓPOLE.
 
QUASE VOLTEI AO PRINCÍPIO. DEPOIS DE UM ANO A COMEÇAR A PERCEBER O QUE CADA UM PENSAVA E O QUE PODERIA VALER EM CASO DE BRONCA NO MATO OU NALGUM ATAQUE.
 
 
ANTES QUE ME ESQUEÇA, ESTOU TRISTE.
NAS VÁRIAS FOTOS TIRADAS NO MUCOJO NÃO CONSIGO VER NENHUMA DOS QUATRO EX-ALFERES DA 3509.
 
 
TAL ERA A SUA RESPONSABILIDADE OU FALTA DE OPORTUNIDADE.
 
O TERCEIRO PELOTÃO MUDOU DE VIDA, NÃO SEI SE PARA MELHOR .(AVENTURA PASSOU A TER).
 
ATÉ AO ALTO DA PEDREIRA, EM BASES PROVISÓRIAS COM POUCA PROTEÇÃO E POUCAS CONDIÇÕES COMO JÁ FOI DESCRITO POR ALGUNS, ERA UMA VIDA DE CIGANO.
PODÍAMOS TER SIDO "APANHADOS À MÃO".
TENDAS RUDIMENTARES, ÁGUA A CORRER COM AQUELAS CHUVADAS DILUVIANAS.
A ÚNICA TENDA "DECENTE" ERA A DOS GRADUADOS.
 
ESTAR QUASE UM ANO NO QUARTO PELOTÃO, DEU-ME EXPERIÊNCIA.
A CAUTELA DO AMÉRICO COELHO, O ESPÍRITO DE AVENTURA DO FERNANDO LOURENÇO.
O TERCEIRO PELOTÃO CONTINUOU ESSA SAGA.
 
SER ALFERES!!!
TER ALGUM PODER DE DECISÃO!!
NA ALTURA NÃO SABER AINDA BEM O QUE ERA "PAGAR" PELA SUA IRRESPONSABILIDADE.
 
CONFESSO, GOSTEI DE TER "O PODER"!!
DENTRO DOS LIMITES IMPOSTOS, ESCOLHER, VAMOS, PARA AQUI, PATRULHAR AQUI, MOLHAR O "CU" ALI.
 
 
EXPERIÊNCIA ÚNICA E CONFESSO QUE GOSTEI DE SER GRADUADO "LEMBE-BOTAS".
ALGUM MAIS DINHEIRO QUE GANHEI FOI INVESTIDO EM CONSTRUÇÕES NO ALTO DA PEDREIRA E COMPRA DE CAÇA PARA A MALTA.
 
SEI QUE MUITOS NÃO IRÃO LER TUDO, TEREI ESQUECIDO ALGUMAS COISAS QUE PORVENTURA JÁ TEREI PUBLICADO.
ESTE TEXTO IRÁ PARA A MINHA PÁGINA PESSOAL DO FACEBOOK, PARA UM DIA MAIS TARDE SE CÁ ESTIVER, LER AO MEU NETO.
 
GRATO PELA VOSSA ATENÇÃO.
PODE SER QUE CONSIGA UM "GOSTO" DO FERNANDO LOURENÇO.
EU GOSTEI DE O ESCREVER. 

sábado, 7 de março de 2015

As comadres em Workshopp na Amareleja sobre o paio alentejano, por Duarte Pereira


Duarte Pereira
AMIGOS E ALGUNS SEGUIDORES.

FOMOS CONVIDADAS PARA UM "WORKSHOPP" NA AMARELEJA, COM A DURAÇÃO DE UMA SEMANA.


ALGUNS LISBOETAS TRATAM AQUELA TERRA POR "MERDALHEJA".

PERTENCE A MOURA, MAS OS "MOUROS" SOIS VÓS.


O TÓINO IRÁ FAZER UMA APRESENTAÇÃO DOS PRODUTOS REGIONAIS AQUI DA NOSSA ZONA DE ESTREMOZ.
A CÂMARA PAGARÁ O NOSSO TRANSPORTE, ESTADIA E ALIMENTAÇÃO.

JÁ QUE VAMOS DIVULGAR PARA O "MUNDO" A NOSSA REGIÃO, A "ESTRELA" SERÁ O "CHOURIÇO" DO TÓINO, PRODUÇÃO PRÓPRIA, TIPO "PAIO..., JÁ CONHECIDO INTERNACIONALMENTE ATRAVÉS DO SEU FACEBOOK.


ESTARÁ PRESENTE A MINISTRA DA AGRICULTURA E PESCAS.

A NOSSA MISSÃO É TESTEMUNHAR COMO É BOM.
SE HOUVER ALGUMA FESTA, O TOINO TAMBÉM CANTA, SEREMOS A SUAS ACOMPANHANTES E COMO CALCULAM COM POUCA ROUPA.

FIQUEM BEM, A NOSSA MISSÃO É "NOBRE" QUE TAMBÉM VENDE ENCHIDOS.


BEIJINHOS, EM ESPECIAL PARA QUEM NOS ENVIOU UMA FLOR.

AI ! AI !!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Camarada de Guerra, por António Lobo Antunes, em artigo de Duarte Pereira


Duarte Pereira
António Lobo Antunes
(escritor e antigo combatente)

Para definir camarada de guerra:
 
«Só quem esteve na Guerra compreende inteiramente o sentido: não é bem irmão, não é bem amigo, não é bem companheiro, não é bem cúmplice é uma mistura disto tudo com raiva e esperança e desespero e medo e alegria e revolta e coragem e indignação e espanto, é uma mistura disto tudo com lágrimas escondidas.»

E, para definir a ausência na guerra:

«Não conheço uma única pessoa que tenha passado por aquele horror na qual não exista uma parte que se mata devagar, em silêncio, numa discrição pungente que apenas os que passaram por aquilo sabem reconhecer.»

E, as recordações:

«De repente a certeza de ter voltado anos atrás e nós, quase meninos julgando-nos homens, nas terras do Fim do Mundo, desamparados, a marcarmos cruzinhas nos calendários a cada dia que passava.
Onde se habitava em condições miseráveis, porque quem mandava em Luanda estava-se nas tintas para nós: bem se ralavam com a nossa sorte e a gente rodeada de inimigos.»
«Metade de nós ficou lá para sempre: a nossa juventude, os nossos projectos, a nossa alma manchada de sangue e terra.
Não vou descrever horrores, não vou contar nada.
Não é possível.
Não consigo.
Era um fardo pavoroso (perdão, é um fardo pavoroso) que continuamos a carregar juntos...»
 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Os bons momentos vividos de VERDADE, por Rui Brandão

Rui Brandão
 
Ao José Capitão Pardal, cumpre-me enviar-lhe um abraço de agradecimento pela "vestimenta" gráfica que emprestou aos meus textos da série "Aconteceu angústia em Macomia" publicados no seu blog.
 
 
Map of macomia cabo delgado
 
Foram textos escritos não ao sabor da pena mas sim ao sabor da raiva e da revolta.
 
Não têm a pretensão de qualquer linhagem literária, mas sim a linguagem simples e entendível por quem "lá" andou.
 
Nada mais do que isso...
 
Prefiro ficar com o melhor que de lá trouxe.
 
A camaradagem e amizade sincera e partilhada por aqueles que dividiram essa saga comigo.

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O esquecimento de quem viveu tempos difíceis é impossível, por Paulo Lopes

 
 
 
O esquecimento de quem viveu tempos difíceis é impossível.
Não de dificuldades materiais.
Falo de dificuldades mentais absorvidas pelo conteúdo de medos complementados por apertos de alma e escassez de esperanças.
 
E por isso as recordações levam-me a pensar que muitos homens embarcaram para o Ultramar. Alguns sofreram apenas a distância que os separava da família.
Outros sofreram até à morte.
Outros ainda, perderam pernas, braços e a vontade de viver.

Houve, decerto, alguns a quem a sorte bafejou a vida (ainda bem para eles), pois passaram toda a campanha numa cidade, dentro de um qualquer quartel, como se apenas tivessem ido cumprir o seu serviço militar um pouco mais longe da sua terra natal.
Mas também a esses, lhes apertou no peito as saudades e a falta dos seus familiares.
Dirão, por desconhecimento, por estupidez ou simplesmente, por total ignorância, que não foi assim tao mau, que o Vietname foi bem pior, que...
Nunca souberam o que era sentir saudades de tudo, até duma simples bica, como toda a minha companhia e outras que, talvez pelo isolamento, talvez devido ao constante jogo de vida e de morte, talvez por todo um conjunto de factores de desmoralização, talvez por termos visto o nosso próprio sangue e o sangue do IN, talvez por termos vivido no centro da guerra, talvez por os nossos ouvidos se ensurdecerem com o estalar das bombas e tiros, talvez por termos brincado com a morte, talvez por termos passado fome e sede, talvez, por tudo ou por nada disto, deveríamos ser todos compensados pelo destino.
Todos nós, cuja juventude ficou perdida, mas que tivemos a sorte de regressar, viemos cansados, dinamicamente falidos.
Haverá os que nunca mais vão recuperar!
Por mim, vou novamente lutar, mas agora, contra a minha própria memória, contra toda e qualquer forma do passado.
Vou recuperar!
Agora sim, agora sei qual a razão da minha luta.
Conheço definitivamente as causas.
Vou acabar em mim com todo o ódio gerado na guerra.
Apagar todas as fogueiras que fiz arder.
 
No entanto, hoje e já alguns anos distantes do que passei, sinto um constrangimento: existe um intervalo, um vazio no tempo e no espaço.
Uma linha indefinível e inexplicável que separa o eu de ontem e o eu presente.
 
Ainda hoje conservo um sentimento de revolta que me obriga a não perdoar e desconfiar de todo e qualquer politico ou governante.
Jamais esquecerei que, a custa do sangue, do medo sofrido, da deterioração cerebral, do desgaste psíquico e até da própria vida de muitos jovens, andam hoje, a ser aplaudidos, levados em ombros e até adorados, nomes que foram potenciais causadores de todo um quadro degradante, de todos estes anos perdidos, de tantas vidas desfeitas.
Nomes que voam por cima.
Que aparecem nas primeiras páginas dos jornais, revistas e noticiários como grandes heróis, salvadores de um povo, lavradores de uma independência!
Gentalha podre de rica à conta de cambalachos e corrupções, de esmagamento de vidas alheias, de prepotências desmedidas, que ironicamente, hoje são, grandes comunistas, socialistas, sociais-democratas, revolucionários, esquerdistas, direitistas e do que mais estará para vir, que eles mesmo —sempre os mesmos— inventarão.
Enfim, grandes e fervorosos defensores da democracia, dos direitos dum povo, da paz dos portugueses e do mundo!...
Filhos da p...!
Contudo, e o que me faz ainda doer mais, e que estes senhores, civis ou ainda militares, aproveitadores duma falsa libertação dum povo oprimido durante seculos, donos do mundo e da vida, continuam e continuarão a ser sustentados e levantados aos céus por aqueles que outrora perderam a juventude servindo os interesses de quem nunca se interessou por eles.
Portugal viu partir muitos soldados.
Uns nunca mais voltaram.
Outros regressaram como grandes heróis que nunca foram.
Grandes combatentes de batalhas que nunca sentiram.
Expoentes máximos no conhecimento de guerrilha que heroicamente travaram nos cafés das diversas cidades Moçambicanas.
Muitos, que realmente foram verdadeiros heróis, com todo o seu medo de combater, com todo o seu receio de ter que disparar a sua arma, com todos os sentidos em pleno desespero, com toda a sua virtude de voltar costas à guerra, passam despercebidos no meio da multidão que corre loucamente, não para acarinhar os jovens que já esqueceram que foram jovens, mas sim, para aplaudir e dar vivas a uma qualquer miss de Portugal, ou uma qualquer equipa de futebol que, algures, nesse mundo que transborda paz e alegria, obtiveram um lugar de destaque.
 
Multidão que corre a aplaudir e festejar vitorias de todos esses partidos políticos que existem no nosso Pais a beira-mar plantado, comandados por senhores tao democráticos como os de outrora.
Tudo o que para trás ficou escrito serve apenas para homenagear todos aqueles desventurados que, sem saberem a razão, tombaram na defesa da mentira dos poderosos.
Também não passa dum forte abraco a todos os heróis sem medalhas, que, perdidos no tempo e na memoria, passam despercebidos, sem historias mal contadas para dizer.
Quero aplaudir todos aqueles que determinadamente convictos, conseguiram fugir a muitas ordens dadas por desmedidos animais ao serviço do poder.
Quero coroar todos os que, a maneira de cada um, foram suficientemente heróis para dizer NÃO a muitas operações, fugindo delas como podiam, não acatando ordens daqueles que nunca estavam no local para as poder fazer cumprir.
in "Memórias dos Anos Perdidos ou a Verdade dos Heróis"
paulo lopes