domingo, 22 de dezembro de 2013

1º DIA DE LIBERDADE LABORAL (ou talvez não), por Paulo Lopes


1º DIA DE LIBERDADE LABORAL
(ou talvez não)

O mar estava calmo como sempre, ou quase sempre, porque o sempre nem sempre é sempre, e entrava suavemente pela areia normalmente fina da belíssima praia da Vila de Sesimbra e que, estranhamente, ou não, tem o nome de Califórnia.
Da esplanada ouve-se o inconfundível ruído das suaves ondas a deslizar areia dentro areia fora, numa lentidão apaziguadora de males espirituais.
Não consigo ver fisicamente todo este encontro e desencontro entre o mar e o areal seco porque estou num nível um pouco mais elevado e recolhido desse espetáculo, mas nem necessito de fechar as pálpebras para sentir o mar a entrar, deslizar e novamente ser empurrado pelo leve ondear para dentro da praia num vai e vem constante e melancólico, dando-me uma sensação de paz e bem-estar.


E ainda houve alguém que me tenha dito, dias atrás: vais-te arrepender! Vais ter saudades!
Outros avisavam em tom acusatório: no início tudo bem, mas depois aborreces-te!


A todos eles eu respondi com relativa calma: aborrecido ando eu de estar aqui oprimido e pressionado por engenheiros que não o são e por “putos” que têm a mania que sabem tudo e mais que todos, desejosos que o mundo gire à sua volta convencidos que tudo pararia se eles não existissem.
Aborrecido ando eu aqui no meio desta gente que coloca os cifrões acima das pessoas e se pisam uns aos outros para obterem um pouco mais de poder.
Aborrecido ando eu de ver, constantemente, pavões a abrir as suas coloridas asas e rebolarem as suas penas pelo focinho dos camelos que os sustentam.
Aborrecido ando eu de andar aborrecido! Disto é que eu ando aborrecido e farto!...


E aqui estou eu, relaxadamente a beber uma bica, a deixar entrar no meu interior toda esta calma que o mar me proporciona, pensando no que me diziam e também numa auto pergunta: será que eu também fui como estes “putos” de que agora “fugi” e não teria afugentado também alguém que, nesse tempo, pensaria de mim o que eu agora penso dos que falo?
Será que quando me colocaram à frente de pessoas mais velhas e a chefiá-las, eu também lhes dei a sensação de querer o poder à custa do rebaixamento, do acalcar repressivo, em detrimento e exclusão do principal e do que eu sempre segui e coloquei à frente: as pessoas?...
Até me arrepio…

Mas deixemos para trás as constantes e repetidas palestras, os mesmos avisos de quem, muito provavelmente, estaria com vontade também de ir embora, mas que lhes ia faltando coragem para isso.
Amanhã, ou depois, nem desses avisos me vou recordar e se por qualquer razão ocasional me vierem à memória tais palestras, apenas dará para me colocar sorrisos no meu semblante.


Estamos em Outubro, ou melhor, ainda bem que estamos em Outubro porque, com um pouco de egoísmo, tenho a praia quase exclusiva para mim o que, deixemos nos de falsos pensamentos, é ótimo: o areal é meu, as ondas são minhas, a praia é minha e até a esplanada, não tem quem tente olhar para os meus movimentos!
E então pensei: que estou eu a fazer aqui sentado no café se posso estar ali, um pouco mais a baixo, dentro daquela maravilhosa água?
E ainda não estava a pergunta totalmente completa e já me levantava a caminho de um mergulho.

Afinal, apesar de estarmos em Outubro, o sol ainda aquece suavemente o nosso corpo e por isso, a praia não estava deserta, o mar não era só meu e as ondas tinham que ser repartidas: aqui e ali, como salpicos na areia, encontravam-se pessoas isoladas e uns dois ou três casais.
Mais ao longe, um pescador tentava a sua sorte ou talvez apenas matava o tempo, enterrando na areia as suas canas de pesca que, reparei depois, serem umas quantas e espalhadas pelo areal da praia.

Um dia destes tenho de ir pescar!
Pensei eu enquanto seguia os movimentos do pescador avarento, que queria a praia totalmente para seu uso exclusivo de serviço piscatório.
Provavelmente também pensou que em Outubro, ninguém teria no seu horizonte perder o seu tempo na praia!

por Paulo Lopes
Paulo Lopes