quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A minha partida para Moçambique, por Paulo Lopes



Algures por aqui, o Duarte Pereira, diz que tem algumas perguntas a fazer sobre a partida para e chegada a África!...
 
RI 3 . Regimento de Infantaria 3 (Beja)
 
 
A minha foi mais ou menos isto e tenham lá a paciência de ler mais um pouco do livro:

Eram 19 horas, quando cheguei ao Aeroporto de Figo Maduro, nas traseiras da Portela e não fosse a farpela a rigor de militar e alguns dos meus companheiros de viagem estarem vestidos da mesma maneira (mais galões, menos galões, com eles ou sem eles), poderia julgar que ali se estava a preparar um embarque para umas férias num qualquer país distante.
 
Aeroporto de Figo Maduro - FAP (Lisboa)
 
Fomos chamados, para nos apresentarmos na sala de embarque e as despedidas que tive com os meus pais, foram rápidas e de forma a que fossem, vou ali e já volto, para não dar origem às lágrimas que, sabia, iam ser muitas após a minha partida.

O ambiente não era, de forma alguma, aterrorizador nem idêntico aquelas partidas de barco que saíam do Cais da Rocha Conde de Óbidos, até porque, os militares eram em muito menor número e na sala de embarque, misturados com as fardas, encontravam-se vestes simpáticas e sofisticadas: familiares de militares que os acompanhavam para as cidades do Ultramar, o que deixava desde logo transparecer que a grande maioria não se deslocava para a guerra mas sim, para a vida normal que tinham abraçado, havia algum tempo, nas terras ultramarinas.
 
Cais da Rocha Conde de Óbidos - Embarque de Tropas para Ultramar
 
Sabiam precisamente para onde iam e lá, nesse local, nada tinham a temer em relação à guerra.
 
Não como eu que ia para uma vida nova.
Nem sabia, tão pouco, para onde ia: — Vais para Moçambique. — Disse-me o meu comandante do quartel de Beja.
— Apresenta-se no Quartel General em Porto Amélia.
— Disseram-me no quartel dos adidos na Ajuda.
Era tudo o que tinha para meu conhecimento!
Sentia-me completamente aturdido, adormecido e inconsciente de que vida me tinham preparado para a minha nova mudança ao serviço do exército.
Ao serviço da Nação.
 
 
O avião levantou voo, precisamente às vinte horas e cinquenta e cinco minutos.
Já comodamente instalado no meu lugar do avião da TAP, um Boeing 707 fretado pelo exército para transporte de militares e familiares (dos graúdos), sentou-se a meu lado um 2º sargento.
 
A viagem previa-se num espaço de tempo longo.
—Nove horas!
— Alguém me tinha informado.
Estava também prevista uma escala em Luanda e portanto muito tempo teríamos para falar de coisas banais, sem interesse, para passarmos as próximas longas horas.
Fizemos, como parecia ser obrigatório e estava previsto, escala em Angola, mais precisamente em Luanda, não só para deixar alguns militares e seus familiares que ficariam por ali mas também para reabastecimento do avião.
Operação que demorou o tempo suficiente para irmos até ao bar do Aeroporto onde, por desconhecimento dos hábitos e preços do marisco em África, mandei vir um prato de camarão para acompanhar com uma cerveja pois, pelo preço apresentado no placar afixado na parede do bar, pensei ser um pires com meia dúzia mal medida, de carapaus de bigode, aos quais nunca perdia, se isso me fosse monetariamente possível, uma ocasião de poder apreciar o seu sabor.
Mas afinal o prato era mesmo um prato e bem recheado.
Nada mau para a minha primeira refeição em terras Africanas.
 
 
Devorei-os sem precisar de ajuda, nem de tempo extra para limpar o fundo ao prato.
Até Moçambique faltava apenas um pulo e assim, às doze horas do dia 7 de Julho de 1972, estava na Beira.
Tinha chegado a Moçambique.
Na Beira, depois daquelas burocracias habituais e extremamente aborrecidas de fazer, soube quando partiria para Porto Amélia, no distrito de Cabo Delgado.
 
Para mim, completamente desinformado da geografia Africana, tal nome nada me dizia, mas como o mal logo se sabe, fiquei esclarecido e para que constasse, Cabo Delgado era um dos principais distritos do norte de Moçambique onde a guerra estava bem implantada.
Começava a acordar de vez!
Mas que poderia esperar um atirador?
 
Aeroporto da Beira
 
Três dias depois, aterrava no Aeroporto de Porto Amélia, capital do distrito de Cabo Delgado.
 

Porto Amélia (Pemba) - Moçambique
 
Entre apresentações e avisos do que havia a fazer, depressa fiquei conhecedor do meu pouso definitivo: — MATACA, junto à Serra do Mapé.

 
Restava-me saber quando e como iria.
 
Ninguém me deu agradáveis notícias de tal paradeiro: uns não conheciam tão pouco Mataca, mas da dita Serra, não me auguravam nada de aceitável.
Outros diziam que era no meio do nada e simplesmente faziam uma careta expelindo dos seus lábios um enorme chiiiiiiii...
Messalo-4.jpg
Outros, os mais conformados, diziam que era igual a tantos outros aquartelamentos espalhados pelas matas de Cabo Delgado.
 
Fiquei a saber o que já sabia...nada!

paulo lopes
in "Memórias dos Anos Perdidos ou a Verdade dos Heróis"